Põe as sapatilhas no pé, se
levanta com o olhar baixo e respira o mais fundo que pode. Vagarosamente
levanta os olhos e observa tudo ao redor. Olha para sua velha e gasta sapatilha,
deslizando-a a frente, ao lado. Move discretamente o indicador. Posiciona uma
das mãos e eleva delicadamente o braço. Não sabe como começar, só sabe o quanto
ama dançar. A perfeita técnica passa a milhas de distância de sua realidade,
mas, ainda assim, há algo diferente em cada movimento, algo que gera e desperta
interesse àqueles que a assistem. Passos quase imperceptíveis iniciam aquele
intenso momento de entrega, de paixão. Delicadeza e leveza preparam seu corpo
ao que há de acontecer. No exato momento em que esquece o que há em volta e
ignora suas limitações... o impossível se torna visível, nitidamente
contemplável. Não há quem diga que não estudou durante toda sua vida. Pernas altas,
giros triplos ou complexidade não fazem parte de sua coreografia, mas a espontaneidade,
criatividade e sinceridade transparecem o que há em seu interior. Se expressa
de uma forma intensa, não exagerada, mas suficiente para contar a história que
quiser. Rosto marcante, olhar expressivo, sorriso singelo. Parece guerrear
enquanto dança, parece bradar enquanto salta. Fala sem abrir os lábios, o único som que se pode ouvir é o balançar de seus cabelos. Como se, em cada
articulação, uma frase fosse escrita ao vento. Giros que espantam o medo, movimentos
que afugentam o mal. O seu melhor é entregue enquanto há apenas Um espectador,
é somente à Ele que anseia agradar. Elogios não são necessários para que se sinta
motivada ou satisfeita, mas saber que O fez sorrir e receber tamanha adoração.
Lágrimas e suor são seu troféu. Lágrimas de superação, de paixão. Suor de seu próprio
esforço, dedicação. E Ele ama a ver dançar. Muitas vezes nem se moveu, pôs as
velhas sapatilhas e caiu sobre os joelhos; essa tem sido sua mais bela dança. O
mover do seu coração, o deixar pulsar em mesmo ritmo que de seu Amado. Entrega de
alma, de espírito... entrega de corpo, quando se permite criar movimentos até o esgotar
de toda a força que possa haver dentro de si. Sua declaração é em silêncio, as
tais palavras escritas ao vento... não pára de dançar, não pára de falar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário